Pastor adventista conta horror
vivido em Santa Catarina
Blumenau, SC... [ASN] Fábio Roberto Correa, pastor das igrejas
adventistas de Blumenau, em Santa Catarina, conta o que viveu a partir do
dia 22 de novembro, com as chuvas que inundaram várias cidades
catarinenses, desabrigaram milhares e mataram dezenas de pessoas. Leia o
emocionante relato do pastor.
“22 de novembro de 2008 era para ser um sábado normal, não fosse o
excesso de chuvas que caía em volume nunca visto durante os 3 últimos
meses e a realização da Caravana da Esperança em Blumenau, pelo pastor
Neumoel Stina, que pregava enquanto a chuva caia fortemente nos pátios na
Vila Germânica, em Blumenau.
“Choveu o dia todo e a noite toda. Quando amanheceu o dia 23, fui
acordado por minha esposa que me mostrou o rio que corre atrás do nosso
prédio. Ele estava cheio e quase chegava no quintal do condomínio: 8,5
metros, enchente em Blumenau. Tiramos o carro da garagem e levamos a um
morro próximo. Fui à padaria e fiquei assustado. Não havia luz, nem pão.
Uma fila enorme. Um desastre iminente? Corri para a igreja e me juntei a
dois diáconos para juntos salvarmos os móveis e utensílios das partes de
baixo da igreja.
“A água cobria a calçada enquanto uma canoa era levada pela correnteza.
Às 11h um amigo chegou machucado com suspeita de fratura em ambos os pés,
um motoqueiro o levou ao hospital. Na igreja nosso almoço foi 3 pacotes de
bolacha recheada que pegamos do Mutirão do Natal. Pouco tempo depois o
telefone toca e uma voz assustada dizia que iria abandonar o prédio, pois
todas as casas em frente dele estavam caindo, que horror! O rio já estava
em 10 metros.
“Saí da igreja de caiaque e atravessei a alameda com água pela cintura.
Quando entrei na rua Hermann Huscher presenciei uma cena que nunca tinha
visto na vida. As casas pareciam de papelão e os morros derretiam como
sorvete sob o sol de primavera. Pessoas gritavam, outras choravam. Minha
esposa saia entre a lama, abraçada e chorando com uma amiga. O vizinho
trazia minha filha no colo, assustada sem entender o que estava
acontecendo. Um primo nos deu abrigo, comida e cama. Começava uma semana
que marcaria a vida de todos nós.
“Tinha 10 anos quando ocorreram as terríveis enchentes de 1983 e 84,
não me lembro de muita coisa, mas desta vez nós estávamos completamente
envolvidos. Desde a menina de 3 anos que morreu soterrada na Rua
Araranguá, no primeiro dia da enchente, até a família de 4 pessoas que foi
soterrada nesta sexta-feira, no já famoso morro do Baú. Tudo isso mexeu
conosco. Vizinhos perderam as casas, amigos e irmãos perderam tudo, uma
vida, um sonho.
“No rosto dos blumenauenses um misto de
angústia, medo, dor, perdas, mas principalmente solidariedade. A tragédia
uniu a todos, seja no prédio, na rua ou na igreja. Não importava a cor da
pele, a posição social, a religião. Todos arregaçaram as mangas e se
puseram a trabalhar para minorar a dor dos flagelados: seja socorrendo um
vizinho, limpando casas, fazendo comida, levando mantimentos, ou orando.
Todos irmanados com uma força colossal e com uma esperança titânica. Vamos
recomeçar, vamos construir tudo de novo.
“No meio da semana a ADRA e sua valorosa equipe começava a trabalhar, o
primeiro caminhão abarrotado de mantimentos chegava de Florianópolis. De
todos os cantos de Blumenau, os irmãos vinham buscar comida, água e
roupa para seus vizinhos, parentes e amigos. Nunca vi tanto desprendimento
e caridade. Ontem mais dois caminhões, um de pessoas que nem conhecemos lá
de Bom Retiro e Alfredo Wagner. É o Brasil unido por Santa Catarina.
“Na semana da Caravana da Esperança, o que mais se fala é de esperança,
esperança, esperança. Onde está a esperança? Quem sabe a resposta esteja
na calamidade, nos desbarrancamentos, no morro! Foi isso que se viu neste
final de semana trágico. No bairro Garcia houve um grande desbarrancamento
num morro, a lama correu e as árvores caíram, mas as que ficaram formaram
algo que nos chama a atenção: uma cruz.
“Uma cruz? Sim uma cruz. Elevo os meus olhos para os montes. De onde me
virá o socorro? O meu socorro vem do Senhor que fez os céus e a terra. No
ano do Impacto Esperança a cruz está lá como um lembrete para os
blumenauenses e para o mundo de que na cruz há esperança. Esperança para
reconstruir tudo de novo, esperança de dias melhores, de dias de sol.
Esperança de um novo amanhã, não aqui, mas na Pátria além.
“29 de novembro de 2008, mais um sábado chegou, era para ser diferente,
mas aqui estamos nesse teatro com nossos líderes que vieram para nos
trazer uma palavra de conforto, de amor, de fé e, principalmente,
esperança.”
Mobilização da ADRA/SC e parceiros
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[Equipe ASN - Felipe Lemos]
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